A paz do Senhor Jesus! Neste post de hoje vamos falar um pouco sobre a "ira de Deus" que relata o Apóstolo Paulo no 1º capítulo da sua carta aos Romanos.
Sabe-se muito bem que, nos dias de hoje, a simples menção da ira de Deus provoca
nas pessoas um certo embaraço, quando não incredulidade. Ora, argumentam elas, se
Jesus, no Sermão do Monte, declarou que irar-se é o mesmo que matar,9 e se Paulo
identifica a ira como uma manifestação da nossa natureza humana e pecadora e, portanto,
incompatível com a nossa nova vida em Cristo,10 como se pode atribuir tal qualidade ao
santíssimo Deus? De fato, a reflexão a respeito da ira de Deus levanta três perguntas
básicas: qual é a sua natureza, a quem se refere e como ela se manifesta.
1. O que é a ira de Deus?
Se quisermos preservar o equilíbrio das Escrituras, ao definirmos a "cólera de Deus",
precisamos evitar extremismos. Temos, por um lado, aqueles que não vêem diferença
alguma entre a "indignação" divina e a pecaminosa raiva humana. No outro extremo
encontram-se aqueles que sustentam que a simples idéia de "raiva" como um atributo ou
atitude pessoal de Deus deve ser abandonada.
Embora exista de fato uma indignação justa, a raiva humana é, na maioria das
vezes, bastante injusta. É uma emoção irracional e incontrolável, com uma boa dose de vaidade, hostilidade, malícia e desejo de vingança. Já a ira de Deus, nem se precisaria
dizer, é absolutamente livre de qualquer um desses ingredientes venenosos.
A intenção de eliminar a mínima noção que seja de que Deus possa irar-se, por ser
este um sentimento totalmente indigno dele, normalmente é associada ao nome de C. H.
Dodd, cujo comentário de Romanos foi publicado em 1932. Ele dizia que "Paulo nunca usa
o verbo 'estar com raiva' quando Deus é o sujeito" (embora se diga freqüentemente que ele
ama) e que o substantivo orgê (ira) é usado apenas três vezes na expressão "a ira de Deus",
apesar de ser usado constantemente como "ira" ou "a ira", sem referência a Deus, "numa
maneira curiosamente impessoal".11 A conclusão de Dodd é que Paulo mantém o conceito
"não para descrever uma atitude de Deus para com o homem, mas para descrever um
processo inevitável de causa e efeito num universo moral".12 A. T. Hanson elaborou esse
ponto de vista em sua obra "A Ira do Cordeiro" {The Wrath ofthe Lamb, 1959), alegando que
a ira de Deus é "inteiramente impessoal"13 e que é "o processo inevitável pelo qual o
pecado mostra os seus efeitos na história".14
Mas o argumento baseado na ausência comparativa da expressão "a ira de Deus" em
favor de "ira" ou "a ira" é fraco. Afinal, Paulo trata a graça de modo similar. No final de
Romanos 5, ele escreve tanto sobre "a graça de Deus" (15), como sobre "a graça", a qual ele,
no entanto, personifica, declarando que ela "transbordou" (20) e "reinou"(21) e
apresentando-a como o mais pessoal dos atributos de Deus. Se, portanto, "graça" é Deus
agindo graciosamente, então "ira" deve ser Deus reagindo contra o pecado. Trata-se da sua
"profunda aversão pessoal" contra o mal.15
A ira de Deus é, pois, quase que totalmente diferente da raiva humana. Não significa
que Deus perca a calma e se enfureça, tornando-se perverso, mau ou vingativo. No conflito
moral, o contrário de "ira" não é "amor", mas "neutralidade".16 E Deus não é neutro. Pelo
contrário, a sua ira é uma hostilidade santa contra o mal, é a manifestação da sua recusa
em suportá-lo ou entrar em acordo com ele, é o seu justo julgamento contra o mal.
2. Contra o que se revela a ira de Deus?
Em geral, a ira de Deus só se volta contra o mal. Nós nos zangamos quando nosso
orgulho é ferido; na ira de Deus, porém, não existe nenhum ressentimento pessoal. Nada a
provoca, exceto o pecado — e este sempre o faz.
Paulo é mais específico ao dizer que a ira de Deus se revela contra toda impiedade
(asebeia) e injustiça (adikia) dos homens que suprimem a verdade pela injustiça (18). De acordo
com J. B. Lightfoot, asebeia é "contra Deus" e adikia é "contra os homens". Mais adiante, ele
diz que "o primeiro precede e resulta no segundo: testemunhem o ensino deste capítulo".17
A Escritura ensina claramente que a essência do pecado é a impiedade, a ausência de
Deus. É a tentativa de livrar-se de Deus e, já que isso é impossível, a decisão de viver como
se isso tivesse acontecido. "Não há temor de Deus diante de seus olhos" (3.18). A recíproca
também é verdadeira: a essência da bondade é a piedade, ou seja, a presença de Deus. E
amá-lo com todo o nosso ser e obedecer-lhe com alegria.
Mas a ira de Deus se volta, não contra a "impiedade e injustiça" in vácuo, mas contra a
impiedade e a injustiça daqueles que suprimem a verdade pela injustiça {adikia de novo). O
problema não está só no fato de cometerem o mal, embora conheçam a verdade, mas sim
em terem tomado uma decisão a priori de viver para si mesmos, em vez de para Deus e
para os outros. Portanto, eles suprimem deliberadamente qualquer verdade que desafie o
seu egocentrismo.
E que "verdade" é essa que Paulo tem em mente? A resposta está nos versículos 19-
20: trata-se daquele conhecimento de Deus que nos é acessível através da ordem natural.E, no entanto, o que de Deus se pode conhecer (e quão limitado é o que se pode fazer
conhecido a criaturas finitas e caídas como nós!) é manifesto, ou aberto, a nós. E a razão
pela qual isso é manifesto é que Deus tomou a iniciativa e nos manifestou. Como? Vejamos
o versículo 20: Pois desde a criação os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza
divina (os quais, juntos, constituem um pouco da sua "glória", 23), têm sido vistos claramente,
sendo compreendidos por meio das coisas criadas. Em outras palavras, o Deus que em si mesmo
é invisível e a quem não se pode conhecer fez-se visível, dando-se a conhecer através de
suas obras. A criação é uma manifestação visível do Deus invisível, uma manifestação
compreensível do Deus que, de outra forma, permaneceria eternamente desconhecido.
Assim como o artista se revela naquilo que ele desenha, pinta ou esculpe, assim o Divino
Artista se revelou através da sua criação.
Essa verdade sobre a revelação na criação é um tema comum nas Escrituras. "Os céus
proclamam a glória de Deus" e "toda a terra está cheia de sua glória".18 O mesmo Jó que
confessou que antes conhecia a Deus "só de ouvir", no final afirma que, através da
ingenuidade da ordem natural, seus olhos o viram.19 Pois, como anunciou Paulo à sua
audiência paga em Listra, o Deus vivo que fez todas as coisas "não ficou sem testemunho:
demonstrou sua bondade dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, dando-lhes
comida com fartura e corações cheios de alegria".20
Já que Romanos 1.19-20 é, no Novo Testamento, uma das principais passagens que
tratam da "revelação geral" de Deus, talvez seja melhor explicar brevemente em que a
revelação "geral" difere da revelação "especial". A auto-revelação de Deus através "das
coisas criadas" tem quatro características básicas. Primeiro, ela é "universal" ou "geral"
porque se destina a todo inundo e em todos os lugares. Nisso ela se opõe à "especial", que
é dada a pessoas específicas em lugares específicos, através de Cristo e dos autores
bíblicos. Em segundo lugar, ela é "natural" porque se deu através da ordem natural. Nisso
ela se opõe à "sobrenatural", que envolve a encarnação do Filho e a inspiração das
Escrituras. Em terceiro lugar, ela é "contínua", pois vem desde a criação do mundo e
continua dia após dia, noite após noite,21 ao contrário da "final", que é completa em Cristo
e nas Escrituras. E, finalmente, ela é "criacional", revelando a glória de Deus através da
criação, no que se opõe à revelação "salvadora", que manifesta a graça de Deus em Cristo.
Mesmo no século vinte, a convicção de que Deus se revela através do universo criado
ainda é significativa para nós. Embora os cinco assim chamados "argumentos clássicos"
para a existência de Deus, formulados no século XIII por Tomás de Aquino em sua obra
Summa, não estejam mais em moda, os cristãos continuam acreditando que, à medida que
os cientistas fazem suas investigações, o poder, a capacidade e a bondade de Deus vão
sendo revelados na beleza e no equilíbrio, na complexidade e inteligibilidade do universo.
Vejamos um exemplo. Depois que os satélites detectaram as dores de parto do
universo e a descoberta foi anunciada à American Physical Society (Sociedade Americana
de Física), em abril de 1992, um leitor anônimo escreveu para The Guardian dizendo:
"Diante de descoberta tão reveladora, o que nos resta fazer, a não ser ajoelhar-nos em total
humildade e agradecer a Deus — ou ao Big Bang, ou aos dois — por haver planejado com
tanta habilidade para que essa parte ínfima do universo chamada Terra fosse presenteada
com essa coisa chamada Ar?" No outro extremo da escala métrica, um cirurgião me
escreveu, alguns anos atrás: "Quando contemplo um pouquinho do que se passa numa
simples célula, sou tomado da mesma admiração e humildade que ao contemplar o céu
numa noite estrelada. A forma como as complexas atividades da célula concorrem
coordenadamente para um propósito comum atinge a parte científica do meu ser,
constituindo-se na melhor prova de um Propósito Supremo." Antropólogos tambémtestificam que existe no ser humano, no mundo inteiro, um senso moral tal que, embora a
consciência seja, evidentemente, de alguma forma condicionada à cultura, mesmo assim
ela ainda testifica a todos, em todo lugar, que existe uma diferença entre o certo e o errado,
e que o mal precisa ser punido (32).
Paulo termina a sua colocação com as palavras: de forma que tais homens são
indesculpáveis (20). Isso mostra que o que ele está defendendo é a "revelação natural", e não
a "teologia (ou religião) natural". Esta última expressa a crença de que é possível aos seres
humanos conhecer a Deus através da natureza e que, sendo a natureza um caminho para
Deus, ela se constitui numa alternativa para Cristo. Há quem baseie essa crença em
Romanos 1, especialmente na expressão tendo conhecido a Deus (21) e na afirmação de que
eles possuíam o conhecimento de Deus (28). Mas é importante lembrar que existem etapas no
conhecimento de Deus e que essas frases de maneira alguma podem referir-se ao
conhecimento... de Deus, que é usufruído por aqueles que foram reconciliados com ele
através de Cristo. Pois o que Paulo alega aqui é que, através da revelação geral, as pessoas
podem vir a conhecer o poder de Deus, sua divindade e sua glória (não a sua graça
salvadora através de Cristo). E 'que essa sabedoria é suficiente, não para salvá-los, mas
para condená-los, já que eles não vivem de acordo com ela. Ao invés disso, eles suprimem a
verdade pela injustiça (18), de forma que são indesculpáveis (20). É contra a rebelião intencional
do ser humano que a ira de Deus se revela.
3. Como se revela a ira de Deus?
A primeira resposta a essa pergunta é que a ira de Deus será revelada no futuro, no
fim dos tempos, no juízo final. Existe algo chamado de "a ira que há de vir",22 e Paulo
chama o dia do juízo de "o dia da ira ... de Deus"23. Em segundo lugar, há uma face da ira
de Deus que se revela hoje através da administração pública da justiça e sobre a qual Paulo
irá tratar posteriormente nesta carta (13.4). Mas não é isso que ele tem em mente no
momento.
Em terceiro lugar, existe outro tipo de revelação da ira de Deus, ao qual o apóstolo
dedicará o resto de Romanos 1. Ela é revelada (agora, no presente) do céu (v. 18). E ele passa
a explicá-la repetindo três vezes o terrível refrão Deus os entregou (24, 26, 28). Quando
ouvimos falar da ira de Deus, nós geralmente pensamos em "relâmpagos caindo do céu,
cataclismos terrestres e majestade flamejante". A sua ira, contudo, se manifesta ''silenciosa
e invisivelmente", entregando pecadores a si mesmos.24 (como escreve John Ziesler, ela
"opera, não pela intervenção de Deus, mas justamente pela sua ação-intervenção, deixando
homens e mulheres seguirem o seu próprio caminho".25 Deus abandona pecadores
obstinados ao seu egocentrismo propositadamente alimentado,26 e o processo resultante
da degeneração.
a. Versículos 22-24
Ao invés de se deixarem levar por esse conhecimento à adoração a Deus, eles não o
glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças. Em vez disso, tornaram-se fúteis e os seus
corações insensatos se obscureceram (22). Essa futilidade, escuridão e ignorância se
manifestaram em sua idolatria e na "troca" absurda que a idolatria deles gerou: trocaram a
glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de
pássaros, quadrúpedes e répteis (23).29 O que Paulo viu claramente, escreve C. H. Dodd, é que
a filosofia grega "abraçava facilmente as formas mais grosseiras de superstição e
imoralidade. E foi o que aconteceu, da mesma maneira que se constitui uma grave
acusação contra a sublime filosofia do hinduísmo o fato de que ela não faz nenhum protesto efetivo contra as práticas mais degradantes da religiosidade popular na índia hoje".3" Só
que a idolatria cultural ocidental não é nada melhor. Trocar a adoração ao Deus vivo pelas
obsessões modernas por dinheiro, fama e poder é tão tolo e reprovável quanto o que
fazem essas filosofias.
A punição de Deus para a idolatria do povo foi entregar cada um à impureza sexual,
segundo os desejos pecaminosos dos seus próprios corações. E a história do mundo confirma que
a tendência da idolatria é acabar em imoralidade. Uma falsa imagem de Deus leva a um
falso conceito quanto ao sexo. Paulo não nos diz que tipo de imoralidade ele tinha em
mente, mas explicita que ela envolvia a degradação dos seus corpos entre si (24). E ele está
certo. O sexo ilícito leva à degradação das pessoas como seres humanos; o sexo no
casamento, segundo o propósito de Deus, enobrece a nossa condição de humanos.
b. Versículos 25-27
Aqui se menciona outra "troca", não a troca da glória de Deus por imagens (23), mas
a troca da verdade de Deus pela mentira — ou melhor, "a" mentira, a maior de todas as
mentiras. Pois é isso que a falsidade da idolatria é, já que implica em transferir nosso
louvor para a criatura em lugar do Criador, o qual Paulo, explodindo numa súbita
doxologia, declara merecedor de adoração eterna: que é bendito para sempre (25).
Dessa vez Deus os entregou a paixões vergonhosas, o que Paulo especifica como sendo
práticas de lesbianismo (26) e relações de homossexualismo masculino (27). Nos dois casos
ele descreve as pessoas envolvidas como culpadas de uma terceira "troca": Até suas
mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras contrárias à natureza (26), enquanto
os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão
uns pelos outros (27a). Duas vezes ele usa o adjetivophysikos ("natural") e uma vez a
expressão para physin ("contrário à natureza" ou "não natural"). Começaram a cometer atos
indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão
(27b). Paulo não especifica qual é essa punição, mas só que eles a receberam "em si
mesmos".
Os versículos 26-27 são um texto crucial no debate contemporâneo sobre a
homossexualidade. A interpretação tradicional, de que eles descrevem e condenam todo
comportamento homossexual, vem sendo contestada pelos movimentos gays. São três os
argumentos levantados. Primeiro, dizem que a passagem é irrelevante, considerando-se
que o seu propósito não é, nem ensinar ética sexual, nem denunciar o vício, mas sim
retratar a maneira como se manifesta a ira de Deus. Isso é verdade. Mas se uma certa
conduta sexual é vista como conseqüência da ira de Deus, então é porque ela é
desagradável a ele. Em segundo lugar, "tudo indica que Paulo estaria pensando somente
na pederastia" já que "não havia outra forma de manifestação homossexual masculina no
mundo greco-romano", e que ele estaria se opondo a ela por causa da humilhação e
exploração vivenciadas pelos jovens envolvidos.31 Tudo que se pode dizer em resposta a
essa proposta é que o texto não contém a mínima indicação que a comprove.
Em terceiro lugar, questiona-se o que Paulo quis dizer por "natureza". Muitos
homossexuais alegam que as suas relações não podem ser descritas como "contrárias à
natureza", já que elas lhes são perfeitamente naturais. John Boswell, por exemplo, escreve
que "as pessoas que Paulo condena são declaradamente não-homossexuais: o que ele
condena são atos homossexuais cometidos por pessoas aparentemente heterossexuais"; daí
a afirmação de que eles "abandonaram" as relações naturais e as "trocaram" por outras
contrárias à natureza (26-27).32 Essa interpretação, no entanto, é refutada por Richard Hays
em uma exegese completa de Romanos 1. Ele apresenta amplas provas contemporâneas deque a oposição de "natural" (kata physin) a "contrário à natureza" (paraphysin) era "usada
com muita freqüência ... como uma maneira de estabelecer distinção entre comportamento
heterossexual e homossexual".33 Além do mais, a diferenciação entre orientação sexual e
prática sexual é um conceito moderno; "insinuar que a intenção de Paulo seja condenar
atos homossexuais somente quando cometidos por pessoas que são, por natureza,
heterossexuais é introduzir uma distinção completamente estranha ao mundo de idéias de
Paulo",34 — ou seja, um verdadeiro anacronismo.
Portanto, não temos o direito de interpretar o substantivo "natureza" como "minha"
natureza, ou o adjetivo "natural" como "o que me parece natural". Pelo contrário, physis
("natural") significa a ordem criada de Deus. Agir "contra a natureza" significa violar a
ordem que Deus estabeleceu, enquanto agir "de acordo com a natureza" significa
comportar-se "de acordo com a intenção do Criador.35 Além do mais, "a intenção do
Criador" significa sua intenção original. Gênesis deixa claro qual era essa intenção, e Jesus
o confirma: "... no princípio, o Criador 'os fez homem e mulher' e disse: 'Por esta razão, o
homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne'.
Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne." Então Jesus acrescentou o seu endosso,
bem como a sua dedução pessoal: "Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe."36. Em
outras palavras, ao criar a humanidade, Deus criou macho e fêmea; Deus instituiu o
casamento como uma união heterossexual; e o que Deus uniu, nós não temos o direito de
separar. Essa ação tríplice de Deus estabelece que o único contexto no qual ele espera que
haja a experiência de "uma só carne" é na monogamia heterossexual; e que uma parceria
homossexual (não importa quão amorosa e comprometida se alegue que ela seja) é
"contrária à natureza" e nunca pode ser vista como uma alternativa legítima ao casamento.
c. Versículos 28-32
A afirmação de Paulo no início do verso 28 inclui, agora, um jogo de palavras entre
ouk edokimasan ("eles acharam que não valia a pena") eadokimon noun ("uma mente
depravada"). Isso não é fácil de traduzir do grego. Poder-se-ia dizer que "já que eles
achavam que não valia a pena permanecer com a sabedoria de Deus, ele os entregou a
uma disposição mental reprovável".
E, dessa vez, a sua mente depravada os conduziu, não à imoralidade, mas a. praticarem
o que não deviam (28), evidenciado em uma inúmera variedade de práticas anti-sociais, as
quais, juntas, descrevem a derrocada da comunidade humana, na medida em que os
padrões desaparecem e a sociedade se desintegra. Paulo apresenta uma relação de vinte e
um vícios. Listas assim não eram incomuns naqueles dias, na literatura estóica, judaica e
cristã primitiva. Todos os comentaristas parecem concordar que é uma lista que resiste a
qualquer classificação mais esmerada. Ela começa com quatro pecados generalizados dos
quais essas pessoas tornaram-se cheias, a saber, toda sorte de injustiça, maldade, ganância e
depravação. Depois vêm outros cinco pecados dos quais eles estão cheios e que retratam,
todos eles, relacionamentos humanos rompidos: inveja, homicídio, rivalidades, engano e
malícia (29). A seguir vem um par isolado, que parece referir-se a calúnia e difamação —
bisbilhoteiros, caluniadores (que a BLH traduz como "difamam e falam mal uns dos outros" e
o NTV, "amargura e mexericos"). Seguem-se outros quatro que parecem retratar formas de
orgulho diferentes e extremas: inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos. Agora
vem outro par independente de palavras que denotam pessoas que são "criativas" em
relação ao mal e rebeldes em relação aos pais: inventam maneiras de praticar o mal;
desobedecem a seus pais (30). E a lista termina com quatro negativas: insensatos, desleais, sem
amor pela família, implacáveis (ou, como diz a BLH, "são imorais, não cumprem a palavra,
não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros", 31).O versículo 32 é um resumo conclusivo a respeito da perversidade humana que
Paulo vem descrevendo. Primeiro se diz que eles conhecem. Mais uma vez ele começa
falando do conhecimento que têm aqueles que ele está retratando. O que eles conhecem,
agora, não é a verdade de Deus, mas o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam
tais coisas merecem a morte. Conforme o apóstolo escreverá adiante, "o salário do pecado é a
morte" (6.23). E eles sabem disso. A sua consciência os condena.
Em segundo lugar, eles, apesar de tudo, descartam esse conhecimento. Eles não
somente continuam a praticar (tais coisas, que eles sabem que resultam em morte), mas (o que
é pior) também aprovam aqueles que as praticam, fazendo aquilo que Deus expressamente
desaprovou.
Chegamos, assim, ao final do retrato pintado por Paulo sobre a depravação dessa
sociedade gentílica. A sua essência está na antítese entre aquilo que as pessoas sabem e o
que elas fazem. A ira de Deus volta-se especialmente contra aqueles que deliberadamente
suprimem a verdade por amor à maldade. "Por mais deprimente que seja o quadro aqui
descrito", escreve Charles Hodge, "ainda não é tão deprimente quanto o apresentado pelos
mais distintos autores gregos e latinos, com referência aos seus próprios compatriotas."37
Paulo não estava exagerando.

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